quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Conto Um - Coisas de Feira

Já era tarde quando o criador deitou-se em sua rede á beira do mar revolto para vê sua obra. Foi ali que ele se criou. Era tarde, sem sol. A noite paria suas primeiras estrelas, o vento desvirginava tudo. As águas faziam-se chacoalhar como se precisasse de algo. Ele, o criador, na sua rede, olha o tempo. Pensa nas vezes que ia para Balcoar, cidade litorânea de detalhes muitos peculiares que só se encontram lá. Descia pelo caminho rochoso até centro da cidade e é lá que fica o bordel em que homens e mulheres protagonizavam cenas de sexo explicito em cima da mesa, cadeira, o quarto, meu deus, era pouco usado. Lugar imundo fedia a merda até a alma de suas queridas meninas. Meninas, mulheres, velhas, mas mulheres. Traziam no rosto marcas profundas de que ali não era o lugar delas.

As mais velhas já satisfeitas de suas vidas, e as mais novas viviam ali por falta de opção. De manhã lavadeiras, à noite, filhas ao deus dará. Nos olhos de cada uma via um desejo insaciável de querer não ser mais aquilo. Fugiam pela noite quando a dona do bordel se embebedava e se entregava, também, a submissão dos homens.

O criador gostava daquela enorme putaria. Despia-se, ficava nu balançando seus falos para as coitadas das meninas, que se enojavam ao ver a rola do velho mais purulenta que ferida de animal. Ele sempre gostou das novinhas, virgens. Elas sempre corriam quando o criador queria uma delas. Às vezes as pegava a força. Algumas aceitavam e se entregavam, outras fugiam ou para se defender quebravam garrafas de vidro e o ameaçava que mataria ele com uma garrafada no peito.

Foi numa dessas noites de visita ao prostíbulo que ele encontrou Neide, mulher de curvas sadias, mas muito suja. Suas pernas, zambetas que nem varas tortas carregavam feridas que pareciam rodelas de calabresa, dessas que se fazem com a carne do porco. Mas ele gostava de Neide, porque ela carregava no corpo fartos peitos e na cara um belo sorriso. Ela também se amava. Adorava sorri, porque carregava dentro da boca cincos dentes de ouro que herdou da avó. Eram seis, quando num dia de trabalho noturno um de seus clientes arrancou um com uma faca.O criador sempre gostava do rebolado dela. Faceiro como vento fazia com as árvores.

Ele volta em si e lembra que está velho, mole, acabado. Já não é o mesmo homem de antes, ávido e supostamente sadio. E é ali balançando na rede sente uma vontade de lembrar o que a vida já não o oferece mais. Ele fecha os olhos remelados, franzi a testa e viaja num pensar de suas lembranças que vem em mente.

Hoje é dia de feira, lugar para comprar fumo, verduras, frutas e mulher bonita. As meninas também eram vendidas como produtos. Cabritinhas novas, com doze, treze anos já eram oferecidas pelas mães que só ficavam com os filhos homens para o trabalho braçal. Dinoranda mulher forte, a dona do bordel que citei anteriormente gosta de vê a qualidade das menininhas. Balcoar é inferno para as meninas. Quem nasce mulher já nasce vendida. Muitas delas acreditam na historia de que um dia um grande homem num cavalo branco irá salvá-las. Mas era acreditar demais, já que mal se via cavalos. As pequenas eram ofertadas na feira de vestidos curtos sem sapato ou chinelo e sem calcinha. Muitos homens querem ver o produto inteiro. A polícia, novidade na cidade, ficava sem fazer nada, inerte, parada no tempo. Também, eles não podiam fazer muita coisa, já que tudo ali era comandado pelos homens mais poderosos.


A feira começa cedo, vai até o entardecer. O suor, a catinga tudo se misturava. Era peixe, carne, tomate, cebola. Tudo era muito. Barracas espalhadas pela rua, bancas no chão, pedintes, senhoras faladeiras, homens de fé. Uma misturada de deus. Como diz o criador, que passeava na sua carroça a fim de comprar mantimentos e levar para sua casa. Ele possuía duas fazendas lá paras as bandas do interior, interior brabo mesmo, depois de Salgueiro. Ele vai lá uma vez no mês para vê as plantações num sei de quê.

Mas a feira já começou, o Criador, observador por natureza masculina, olhava para uma família que vinha de um sítio nas redondezas de Balcoar. Vinham sempre de longe quatro irmãos, duas meninas e dois meninos juntamente com sua mãe para vender carne de bode novinha. Eles ficavam quase no final da rua, aonde a feira terminava, perto da pista de rodagem aonde os carros iam da capital para interior. O mais velho trazia o carro de mão de carne abatida. Era um mosqueiro só. As carnes já cortadas em pedaços vinham em sacos de plástico amontoados uma em cima da outra. Dava para ver que o carro de mão era só sangue. Parece que os animais foram mortos hoje bem cedinho. E ali eles montavam sua barraca. Ganhavam um bom trocado.

Montavam lá. Uma tábua velha de madeira em que colocava a carne dentro de uma bacia plástica cheia de uma crosta cinzenta de poeira que se passasse o dedo devia vir mais dois dedos desse grude. Do lado da bacia, uma balança enferrujada com pesos comprometedores. Os filhos seguidos de um menino e uma menina, sucessivamente, são quatro, lembrem-se. O irmão mais velho deve ter uns treze anos e a menina mais nova uns cinco anos. As crianças não são cadavéricas, mortas de fome não. A mãe luta com o que pode e o que não pode para dar a eles a comida nossa de cada dia.

O mais velho fica com a mãe e os menores iam andar pela feira para carregar compras e ajudar as pessoas. A menina mais velha, quando passava pelos compradores de menininhas, era apreciada como mosca na merda. Diziam que ela já tava quase no ponto para o abate carnal. A mãe dela não quer isso. Mata o homem que tocá-la. Decidiu que a filha ao completar quinze anos vai para a casa da tia no Recife para estudar.

Assim a feira continua, a carne de bode sendo vendida aos poucos, mas vendida. A mãe pede que os três filhos vão procurar o que já haviam combinado, que ela vai continuar vendendo a carne. A menina logo aparece com dois cachorros novinhos, de olhar pedinte como quem quer um dono. A mãe faz o sinal para a filha para que o cachorro fosse levado para a casa velha lá perto da pista de barro, onde não se tem ninguém. Mas, é assim todo dia de feira, as meninas catando os cachorros discretamente, ou indiscretamente para guardá-los na casa de barro. Algumas pessoas até comentam que essas meninas gostam de um cachorro só. A mãe com a cara de inocente diz que é para brincar e no mesmo dia elas soltam pela feira mesmo.


O sol quente que nem panela fervendo, o suor faz queima na testa. A mãe puxa uma sacola que estava acomodada nos pés da barraca e tira as marmitas já preparadas. Os filhos logo aparecem cada um pega sua marmita e senta no beral da calçada. A filha mais velha diz no ouvido da mãe que já pegou cinco cachorros e uma é grande e está buchuda. Todos almoçam um bom feijão com arroz e galinha assada. Alguns clientes aparecem a mão se levanta para atendê-los gentilmente e assim o tempo vai.

O rói-rói da feira vai se acabando a mãe se arruma com os filhos, se despede dos amigos de rua e segue com os filhos numa carreirinha esperta. As crianças conseguiram muitas coisas dos amigos das bancas. Arroz, feijão, verduras e frutas que ganham ao ajudar os feirantes. A mãe também juntou um bom dinheiro com a venda do bode que dá para sustentar a casa com comida e para comprar sementes e fazer um roçado. Eles seguem seu caminho e passam pela casa velha de barro, os meninos pegam os cachorros menores enfiam dentro um saco, e a cachorra maior segue abanando o rabinho, amarrada por uma corda, feliz da vida porque arranjou um lar.

Ela passa na frente da igrejinha de São Severino dos Ramos, se benze e segue para o sítio. Na porteira vê se logo três pés de mangas abarrotados. A mãe olha para cima e deseja para que as mangas do pé logo amadureçam porque os cachorros ainda são novos e dão pouca carne. As crianças correm e dão a volta na casa e colocam os cachorros num cercado que fica no meio de um pequeno milharal. Já tem quatro grandes e dois médios separados. Tadinhos dos cachorrinhos abanam o rabo com tanta alegria, sem saber que na próxima feira vão virar uma saborosa carne de bode nas panelas de muitos.

João Rafael
Conto resgistrado na Biblioteca Nacional

Nenhum comentário:

Postar um comentário